O interior de uma caixa-forte, tendo ao fundo uma parece recoberta de pequenos cofres rectangulares, do lado direito a porta (aberta) de um enorme cofre e no lado oposto um balcão; atrás deste, um número impreciso de ecrãs a fazer lembrar a sala de controlo de um estúdio de televisão. Diversos personagens aparentemente saídos de um set cinematográfico (na altura parecia ser a única explicação plausível) atravessam o palco: soldados romanos cruzam-se com pagens gregos, escravos egípcios e homens da segurança de óculos escuros e auriculares. Entretanto, de dentro do cofre irradia uma luz dourada fortíssima e escuta-se uma voz grave que debita umas frases apocalípticas, ao que nos apercebemos que o cofre é na verdade uma prisão. Junto ao balcão encontram-se dois homens e uma mulher fardados de guardas prisionais. Conversam entre si, mas um deles olha insistentemente para os ecrãs, nos quais se vê agora uma jovem com um ar mortalmente entediado no que parece ser uma recepção. A colega admoesta o guarda prisional de que se ele continua a olhar assim para a filha do patrão vai ter chatices. Meu dito, meu feito: a jovem, que responde pelo nome de Salomé, farta-se do evento e resolve descer à cave para conviver com a classe trabalhadora, imbica que quer ver o prisioneiro e faz olhinhos ao guarda prisional (babado) que, por fim e contra as ordens do patrão, deixa o encarcerado ver a luz do dia por uns momentos. O ar andrajoso e assustador do prisioneiro - que continua a debitar incompreensíveis frases apocalípticas - não repele a jovem, a qual começa por lhe elogiar o físico, depois o cabelo e por fim a boca. Nesta fase já deu para perceber que a filha do patrão não é muito esquisita no que respeita a homens - nem a mulheres, como depois se perceberá - e que muito provavelmente sofre de miopia. O prisioneiro rechaça todos os avanços e amassos e diz-lhe repetidamente que ela é uma putéfia e que a mãe dela não lhe fica atrás. A jovem, que possivelmente sofreria também de surdez ou de défice de QI, não percebe que o prisioneiro - que responde pelo nome de João, pelo apelido de Baptista e é santo - não está mesmo a fim dela e insiste em querer beijá-lo. Pelo caminho aparece o guarda que acha piada à pequena que, ao vê-la afanadinha pelo João, resolve suicidar-se com um canivete suíço (espantosamente, consegue-o à primeira tentativa e tem de passar os dez minutos seguintes a fingir-se de morto). O prisioneiro volta para o cofre/cela e desce o patrão (Herodes) envolvido numa camada de papel de prata ou vestido à anos 70 (ficou a dúvida), acompanhado da mulher (uma espécie de Cruella com excesso de peso e cabelo laranja) e um cortejo de convidados, cada um mais mal vestido de cerimónia que o outro. Pois dá-se que o Herodes quer que a Salomé - que afinal não é filha, mas enteada - volte para o banquete e pelo caminho vai-lhe deitando uns olhares lúbrico-etílicos (ou etílico-lúbricos). Sendo a Salomé uma rapariga caprichosa, insiste em ficar na cave, pelo que a festa muda-se para o andar de baixo (os egípcios/gregos/romanos tratam da logística) e percebe-se que não faltará muito para que o espectáculo se torne para maiores de 18. O momento chega quando o padrasto insiste que a Salomé execute a sua famosa dança dos sete véus, ao que ela acede apenas depois de obrigar Herodes a dar-lhe em troca o que ela pedir. Este saliva abundantemente e, com o juízo claramente turbado, diz-lhe que sim, que dance, que logo lhe dará tudo o que ela quiser. O que se segue permitiria perceber a razão da sobre-excitação do Herodes não fosse a Salomé ser uma pequena a precisar de umas idas ao ginásio e de uma plástica. Isso não parece incomodar os demais convidados masculinos, que acabam a dançar à volta ela em boxers e, em alguns casos, com menos do que isso. A dança atinge o seu paroxismo quando a Salomé decide fazer as delícias de um velhote, ou melhor em cima de um velhote; que por sinal era um dos que estava sem boxers. A mulher do Herodes não acha piada à brincadeira, mas o marido está deliciado a gravar toda a cena com uma câmara. Claro que no final chega a conta e, para grande embaraço do governador da Judeia, a roliça Salomé não está interessada em riquezas mas na cabeça do pobre do João. Muito a contragosto o governador acede e a ópera termina numa cena de cabidela, com a jovem Salomé aos chochos à cabeça decepada.
[o benévolo e paciente leitor acabou de ler uma descrição da ópera "Salome" tal como foi encenada e representada no Teatro del Maggio Musicale Fiorentino, no dia 12 Outubro de 2010; e, a julgar pelos apupos no final e pelos aplausos mortiços, é capaz de não andar muito longe da verdade]

Mas o Heródes colocou o video que gravou de toda aquela cena escaldante (ou, melhor dito, escalofriante) no youtube? E o velhote "boxer-less", aguentou a investida salomeira ou teve que ser hospitalizado a seguir?
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